segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Eternidade...

Todos nós somos, no fundo, uma multiplicação fractal de nós próprios no espaço e no tempo...
. A eternidade é o nosso signo. Não começámos a existir nem o fim da existência o entendemos como fim. Por isso não sentimos que não existimos antes de começarmos a existir mas apenas que tudo isso que aconteceu, antes de termos existido, foi apenas qualquer coisa a que, por acaso, não assistimos, como a muito do que acontece no nosso tempo. E à morte invencivelmente a ultrapassamos para nos pormos a existir depois dela.
O prazer que nos dá a história do passado, sobretudo os documentos que no-lo dão flagrantemente, vem de nos sentirmos prolongados até lá, de nos sentirmos de facto presentes nesse modo de ser contemporâneo. Mas sobretudo há em nós uma memória-limite, uma memória absoluta, que não tem nada de referenciável e se prolonga ao sem fim. Do mesmo modo há o futuro que é pura projecção de nós, apelo irreprimível a um amanhã sem termo ou sem amanhã.
Por isso a morte nos angustia e sobretudo nos intriga, por nos provar, à evidência, o que profundamente não conseguimos compreender. Mas sobretudo a eternidade é o que se nos impõe no instante em que vivemos. O tempo não passa por nós e daí vem a impossibilidade de nos sentirmos envelhecer. Sabemo-lo na realidade, mas é um saber de fora. Repetimo-lo a nós próprios para, enfim, o aprendermos, mas é uma matéria difícil que jamais conseguimos dominar.
Por isso estranhamos que os nossos filhos cresçam e se ergam perante nós como adultos que não deviam ser. Por isso estranhamos os jovens pela sua estranheza de que quiséssemos, porventura, ser jovens como eles. Instintivamente sentimos que é um abuso eles tomarem o lugar que nos pertencia e nos desalojem do lugar que era nosso. Por isso sofremos, não bem por perdermos o que nos pertencia, mas pela dificuldade de isso entendermos. Há uma oposição frontal entre o nosso íntimo sentir e a realidade que isso nos desmente.
Somos eternos, mas vivemos no tempo. Somos imutáveis, mas tudo à nossa volta se muda e nos impõe a mudança. Somos divinos, mas de terrena condição. É essa condição que sabemos, mas não conseguimos aprender. Nesta oposição se gera toda a grandeza do homem e a tragédia que o marcou. Os que se fixam num dos termos são deuses iludidos ou animais que não chegaram a homens. Porque o verdadeiro homem é deus por vocação e animal por necessidade.

30 comentários:

f@ disse...

A existência é só por si uma luz que mtas vezes nos encandeia... mas é profundo demais existir entre tudo e nada...
beijinhos das nuvens

Violeta disse...

Poderia dizer muita coisa sobre o tema, digo apenas que houve momentos da minha vida que quis morrer, apenas porque acredito que há mais vida do que isto que por aqui se vive. Tem que haver...
Hoje, mais velha estou mais serena e vejo as coisas de outra forma. mas lembro-me da sensação de acordar e pensar: não morri, a dor continua cá, a eterna dor que nos diz que estamos vivos.
Que continues feliz.

JPD disse...

Olá Lyra

A necessidade de sermos, fazermos e projectarmo-nos para além de um quotidiano que pouco possa resistir ao esquecimento corresponde a um sentimento muito forte de limitação física e de nos projectarmos intemporalmente através da preservação na memória.

Faz parte da nossa condição envolver tudo o que fazemos e no que participamos na necessidade intrínseca oe nos projectarmos, fazer a diferença.

Isso, julgo modestamente eu, é saudável.

Bj

* hemisfério norte disse...

na eterna idade
fica
o pó

bj
a.

Laura disse...

Muito bem nina, tocas bem a lira!, da palavra! acredito na vida depois desta vida, acredito que cada um vai para onde merece, pois ali felizmente ou infelizmente; não há cunhas... Mas quantas vezes já dei comigo a pensar que do outro lado será melhor, é que a vida tem tanto tormento enquanto crescemos e vamos tentando viver, mas,sei que tem de ser...Adoro ver meus filhos crescer e tornarem-se adultos e a ocupar o lugar que lhes comepte, pois nós temos mesmo de ir andando em frente...O verdadeiro caminho está do lado de lá à nossa espera!...E como esta vida já pouco me diz, por vezes anseio mesmo que já tivesse passado o que aind ame falta e...já me encontrasse num reino de serenidade e de paz, mas, trabaljando semrpe para ajudar quem mais precisasse!...
Beijinho nina da lira!...da, laura.

Crystal disse...

Fantástica a forma como expões tantos mistérios...o antes,o durante e o depois. As duvidas resumidas em tão poucas palavras de uma forma espectacular.Tocou-me especialmente a parte do envelhecimento, de termos a percepção do envelhecimento apenas atraves dos nossos filhos que crescem...vou ler outra vez. Beijo

Rafeiro Perfumado disse...

Shakespear disse em tempos "os velhos desconfiam da juventude porque já foram jovens". Quanto à tua conclusão, como eu gostaria de acreditar nela... Beijo!

Menina do Rio disse...

No final resumistes tudo! O verdadeiro homem é deus por vocação e animal por necessidade. Porque para alimentar a alma que é eterna, precisamos manter a matéria até que se degrade no envelhecimento, mas não aceitamos esta degradação, porque temos receio da passagem para além deste espaço limitado em que vivemos.
Um grande texto, Lyra!

Um beijo imenos pra ti e tem uma ótima semana

João Videira Santos disse...

...na multiplicação do ser encontramos o sentido, damos asas ao fututo!

Marta disse...

Interessante o tema...
Há sempre o horizonte a conquistar, há sempre uma nova forma de sorrir...
Obrigada pela visita....
Até já
Beijos e abraços
Marta

NAELA disse...

Linda um post interessante e envolvente...nos somos eternidade!
Somos luz e magia, recuperamos a cada prova aprendemos que o "tempo" persegue-nos, por isso o importante é renovar a cada etapa!
Beijo sem fim

gaivota disse...

a eternidade é um posto???
um tema interessante, é a vida que nos proporciona os motivos de existir!
beijinhos

Pena disse...

Linda Amiga:
Um conjunto de instantes descritos com a profundidade explicativa da vida.
Quando diz, de forma sublime e gigantesca do sentimento:

"...Somos eternos, mas vivemos no tempo. Somos imutáveis, mas tudo à nossa volta se muda e nos impõe a mudança. Somos divinos, mas de terrena condição. É essa condição que sabemos, mas não conseguimos aprender. Nesta oposição se gera toda a grandeza do homem e a tragédia que o marcou..."

Um post sensível, doce e terno.
A verdadeira essência do existir.
Parabéns sinceros.
Sempre a admirá-la e a estimá-la
Beijinhos respeitadores

pena

Adorei, fantástica amiga!

VANUZA PANTALEÃO/OBRA LITERÁRIA disse...

Amiga, grata, mais uma vez, pela presença e sua abalizada opinião!
Sim, vivemos nessa dicotomia:matéria/espírito. E essa é uma das causas do nosso sofrimento. Os orientais, me parecem, souberam constuir essa ponte...
Sua exposição chega em hora certa, dado vivermos mergulhados na falsa esperança científico/tecnológica da "pílula da eternidade".
Te parabenizo com Carinho!!!

Bandys disse...

Adoro seus posts.
São bem esclarecidos.
beijos

Sr do Vale disse...

Lyra,
Você foi fundo nas entranhas da psicologia humana.
Um conceito que eu ainda não havia definido é esse sobre a "rivalidade" entre jovens e velhos, que você percebeu com clareza.

E encerra-se o texto com chave de ouro, deuses e animais num mesmo personagem de instantes eternizados.

Abraços.

Milena Marília disse...

Olá Lyra!

Adorei o texto!!

que bom que as férias foram ótimas!

abraço

Milena

quanto pesa o vento? disse...

que grande regresso!
que bom teres voltado de férias com essa força toda:)
beijinho.

MEU DOCE AMOR disse...

Lyra:

Texto profundo.

Pergunto:

Como é feita a passagem daqui para lá?Deste tempo para o outro?

Gostei muito da conclusão.

Beijo doce e obrigada pela tua visita.

Continuo então a Sonhar?

:)

Renata Maria Parreira Cordeiro disse...

Gostei muito do seu texto. Mas o que há entre o tudo e o nada, além da existência? Amiga, fiz novo post porque durante aquele tive dias horríveis. È longo e não precisa ser lido na íntegra. Vc presiona tecla "Page Down", que todo computador tem, e vai para onde quiser. Leia ou veja o que quiser. Se tiver interresse em mais coisas, o post está lá, basta voltar outra hora.
Um beijo,
Renata
wwwrenatacordeiro.blogspot.com
No final do post, no meu jardim cheio de rosas, pus uma casinha e um banquinho para as pessoas descansarem e depois irem ao meu castelo.

Margarida disse...

Sem palavras!
Simplesmente FABULOSO!
Cada visita a este teu espaço contém uma agradavel experiência atraves das palavras que, de forma tao plena, escreves!
Um beijinho

mundo azul disse...

Penso que nossa essência é eterna, mas, temporária a nossa passagem pela Terra... O corpo passa, pois é apenas um invólucro que logo será descartado, a alma permanece inalterada!

Muito bom o seu texto...Reflexivo!!!

Beijos de luz e o meu carinho...

Raquel disse...

Adorei tudo por aqui!
Até
http://sex-appeal.zip.net
http://cara-nova.zip.net

Lampejos disse...

Lyra,

Bela reflexão, belo tema.

Todo prazer em ler-te... sempre...

(a)braços,flores.girassóis :)

Gerlane disse...

Existir implica em administrar o que não entendemos, mas é real, e nem sempre passivo de mudanças.
É preciso aprender a lidar com o contraditório, é essencial para sobrevivermos.

Beijos pra ti!

Maria Laura disse...

É de facto extremamente difícil fazermos o acordo entre o tempo que, na verdade, não passa dentro de nós e aquilo que a evidência física nos demonstra. Fazes aqui uma bela reflexão.

Renata Maria Parreira Cordeiro disse...

Lira:
Já vim aqui e comentei este post seu, aproveitando para convidá-la a ir apreciar o meu novo post. Mas vc não foi. Por favor, vá. Sinto falta de amigos, porque sou sozinha.
Um beijo,
Renata
wwwrenatacordeiro.blogspot.com

Fátima disse...

Amiga,

Que grande tema "Eternidade", explicar impossível, viver sempre! Belíssimo texto!

:-) um beijo

Oliver Pickwick disse...

Filosófico, lógico, atemporal, e cheio de aforismos.
Um beijo!

Å®t Øf £övë disse...

Lyra,
Nunca tinha lido uma explicação com a qual concordasse tanto como esta que acabei de ler sobre a forma como interpretamos o nosso envelhecimento aos nossos olhos, e na nossa compreensão para o que nos sucede enquanto seres limitados pelo tempo.
Bjs.