quarta-feira, 18 de junho de 2008

De sonhos, prazeres e realidades...

Se um Deus nos dissesse: Tenho o poder de fazer-te dormir e sonhar eternamente sonhos felizes. A escolha é tua: ou ficar acordado, mortal e infeliz, ou adormecido, imortal e feliz, o que escolheríamos? Se o ser humano procurasse apenas o prazer, se tudo se movesse pelo princípio do prazer, não há dúvida que deveríamos escolher o sonho. Contudo, experimentamos uma resistência, repugna-nos o adormecimento, parece-nos que a felicidade, no sonho, não é uma verdadeira felicidade, mas quase um sucedâneo. Não é próprio do homem ser feliz em sonho, queremos sê-lo acordados, na vida real. Mas que diferença faria para nós? Quando sonhamos não sabemos que sonhamos, a vida do sonho é subjectivamente real. Uma vez adormecidos não podemos comparar. Mas é precisamente isso que nos perturba, o facto de não podemos acordar: isto é, de reconhecer o sonho como sonho, de distinguir a ilusão da realidade. Há decerto momentos na nossa vida em que aceitaríamos a proposta do deus, nos momentos de dor, de tensão insuportável, ou quando nos atormenta o sofrimento físico. Estão gostaríamos de não ouvir mais nada, ou esquecer, e estaríamos dispostos a trocar a nossa pobre consciência por um sonho sereno. Algumas vezes estamos tão desesperados que desejaríamos mesmo a morte. Mas, salvo, estes períodos terríveis, há qualquer coisa que nos leva a estar conscientes. A nossa escolha vai instintivamente para a consciência. E os pontos mais altos da vida são também os momentos de mais alta consciência. O sono e o sonho podem ser um refúgio, um remédio, mas não um objectivo...

Porque é um sono, porque a felicidade assim obtida não tem nada a ver com um confronto com a realidade. Mas então na nossa ideia de felicidade está implícito um confronto com o mundo real, uma acção nesse mundo. No sonho, mesmo que seja um sonho de beatitude, falta algo essencial: o confronto com a realidade, confronto com aquilo que se é e aquilo que se poderia e gostaria de ser: a liberdade. No sonho nós somos totalmente determinados pelo fluxo do sonho. Ainda que tomemos decisões, estas não são decisões reais, não determinam nenhuma consequência, porque no sonho não há nem causa nem efeito, não há acção livre. No sonho falta-nos a consciência do sonhar que só pode manifestar-se através do confronto com outro estado, a vigília. Mas, sobretudo, no sonho, faltando o real, falta-nos o possível e, por conseguinte, a autodeterminação...

Por isso a felicidade está ligada à incerteza, ao risco, ao pedir sem a certeza absoluta de que chegue o sim, porque o outro deve ser totalmente espontâneo e livre e, por isso, totalmente imprevisível. Como está longe do sonho esta situação! Na vida real a felicidade parece-nos continuamente suspensa sobre o abismo do improvável; existe precisamente porque não temos certezas; nasce do encontro do meu desejo com a realidade, mas uma realidade que tem a minha própria natureza: espontânea e livre. Claro que nós procuramos o prazer. Porém, o prazer não pode ser assegurado antecipadamente, surge-nos como graça, como milagre, como algo a mais...

“Em todos nós, no mais profundo da alma, há uma subterrânea inquietação, o desejo daquilo que parece sempre escapar-nos, a dor por qualquer coisa que não sabemos bem o que seja. Até quando estamos apaixonados e somos correspondidos, no momento em que nos vamos embora ou o nosso amado parte, mesmo numa seperação breve, aquele sofrimento profundo reaparece. Por vezes reaparece até num momento de felicidade porque aquela felicidade se nos revela fugaz. Nós olhamos para o céu, um pequeno pedaço de céu azul, como que para concentrar nele toda a nossa felicidade e sentimos tristeza porque poderemos recordar aquele céu mas não podemos prolongar esse instante. Experimentamos este sofrimento à noite, sem motivo, de manhã ao acordar sem saber porquê. A nossa alma está construída para desejar algo absoluto e, portanto, inefável e inacessível. Quando estamos ocupados não nos apercebemos disso (…) mas toda a nossa vontade está orientada para a meta e é ela que se ilumina com aquilo que procuramos sempre…”

Francesco Alberoni - “A árvore da vida”

51 comentários:

Gabriella disse...

Aiiii, que lindo!
Esse texto falou muito comigo.


Parabéns pelo blog lindo!
Vou virar fã de carteirinha.

Abs

Marta disse...

Texto interessante; as nossas dúvidas são exactamente essas....
O que queremos realmente? Viver no sonho e não correr riscos ou correr riscos, perder, aprender e voltar a jogar??
Obrigada pela visita - volta, sim...
Quando quiseres; a mesa está sempre posta para o chá...
Beijos e abraços
Marta

Poeta Mauro Rocha disse...

"Se um Deus nos dissesse: Tenho o poder de fazer-te dormir e sonhar eternamente sonhos felizes. A escolha é tua: ou ficar acordado, mortal e infeliz, ou adormecido, imortal e feliz, o que escolheríamos? "

Eu escolheria ser mortal e infeliz, pois todas às vezes que eu abrisse a caixa de pandora encontraria a esperança de que as coisas iriam mudar. Belo texto.

Um abraço e beijo!!!


MAURO ROCHA

Carlos disse...

olá,

se podemos er felizes no sonho...que o sejamos então durante esse percurso...porque não!?
a felicidade pode ser algo de momentaneo, eventualmente... mas ainda bem que a vida não é feita de certezas...senão tudo não passava de um «quadro morto»...
agora , tudo é um risco na vida, tudo é um constante desafio.
Temos que procurar ser livres e na liberdade encontrar o amor e a partilha de todas aquelas coisas, o desejo, a paixão....
agora se vai ser eterno, quem o saberá?

Olha se isto , que te vou aqui deixar , te fizer sorrir, também eu fico feliz e é assim:«eu amo o meu maridão e... .. »
muito lindo . Parabens.


Obrigado pela visita ao meu canto.

Tudo de bom

Pena disse...

Linda Amiga:
Sim! A realidade é bem diferente do sonho.
É, por isso, que o sonho, sonho-o, amo-o, sinto-o e vivo nele com intensidade e querer.
Sei perfeitamente que a irrealidade da existência que construimos não se aceita, nem é admissível por estar nesta forma de estar e existir.
Olhe, adorei a sua visão pessoal deste poderoso e profundo Post feito pelo seu encanto, mas repare, o que sinto pelo sonho é imenso. Nunca poderis abdicar dele.
Sou muito feliz por sonhar. Ele conduz ao prazer, ao arrebatamento, à minha necessidade.
Fez um texto de maravilhar. Construiu uma admirável prespectiva de vida, mas tenho a certeza absoluta que o fez com a Alma linda que possui e pelo sonho que mora docemente no que faz.
Beijinhos amigos que respeitam e estimam

pena

Vieira Calado disse...

Um belo trabalho de reflexão sobre o sonho. No fundo é isso.
O sonho.
Gostei muito do seu texto.
Bjs

CATARINA POETA disse...

...Sonhar não custa nada, e meu sonho é tão real...
Lindo texto!
Somos seres livres, mas ao mesmo tempo prisioneiros de condicionamentos que nos são impostos desde a hora que nascemos.
Temos asas em nossa imaginação e não sabemos voar com o nosso espírito.
Ainda assim, temos a liberdade de correr riscos, e como disse o poeta: "o caminho fazemos ao caminhar".
Beijo grande e obrigada por você existir!

Ravnos_Blacklotus disse...

[risos]
Será que somente eu escolheria dormir eternamente?
Beijo e uma @},----

Crisfonseca disse...

Olá, que linda postagem, bela.
Sonho, quem somos nós sem eles
sonhos nos tras respostas do subconsciente, eu tenho um caderno de sonhos, este caderno deve ter mais de dois anos, nele tem anotados todos os meus sonhos, muitos me trasem respostas, outros me encantam.
Beijos,
Cris

Cadinho RoCo disse...

A referência de todo sonho está na realidade e o despertar de nova realização está sempre nascida do sonho.
Cadinho RoCo

Lorena disse...

Que texto mais lindo e verdadeiro. É verdade, acho que eu escolheria a realidade sem pensar duas vezes. Isso me lembrou um livrto que eu li certa vez, sobre uma donzela que, não podendo realizar o amor como gostaria, começou a sonhar com um homem, um trabalhador de uma mina. Durante o dia ela o observava da janela, e à noite sonhava com ele. O sonho começou a ficar tão melhor que a realidade que a moça não conseguia mais acordar, passava cada vez mais tempo dormindo e menos acordada. Com isso foi ficando fraca, adoecendo e por final, morreu, de tanto sonhar.

Então, eu prefiro viver a realidade com seus sofrimentos do que morrer no mundo dos sonhos.

beijos

Luis F disse...

Mais um belo texto... adoro deliciar-me com as tuas prosas e com os teus post.

Parabéns amiga...

Com amizade
Luis

Éverton Vidal disse...

No princípio o texto me lembrou aquele ambiente socrático-platônico-matrix (rs) de alegorias de cavernas... Sim, disso aqui ser um sonho. Mas nao, o texto fala do real. Felicidade é um choque, sim, entre o sonho e o real. Gostei do texto e das imagens (sempre).

Ademais, é tao legal ler o português de Portugal rsrs.

Bj. Inté!

* hemisfério norte disse...

Adoro FRANCESCO ALBERONI. :)
-
Como eu já disse na Cripta de Ravnos, eu optaria por umm mundo melhor; não perfeito mas melhor. Sem fome, sem a desigualdade dilacerante que esamos a assistir, sem injustiças, sem preconceito....and so on, and so on
bjs
a.

mariam disse...

excelente!
este tema é interessantíssimo...

fantástica a fase "Por isso a felicidade está ligada à incerteza, ao risco, ao pedir sem a certeza absoluta de que chegue o sim, porque o outro deve ser totalmente espontâneo e livre e, por isso, totalmente imprevisível."
o lugar comum costuma ser o contrário, felicidade relacionada com estabilidade!

gostei muito

um sorriso :)
e obrigada p`la visita

mundo azul disse...

A insatisfação existe, pois, nesse mundo, todo prazer é efêmero, instável, impermanente...
Se vivêssemos totalmente o momento do prazer, sem pensarmos em repetí-lo...
O que nos traz sofrimento é o desejo de mantermos essa sensação de
prazer, que nunca mais será repetida.
Gostei muito do seu texto! Profundo e reflexivo...
Beijos de luz e muita alegria no seu coração!!!

Crítica e denúncia disse...

Gostei demais dsta reflexão; coisa linda quando nossa inteligência no sleva a escolher um exelente texto para primiar quem nos visitas.

Você sabia que muitos dos meus sonhos aconteceram? Estes foram sonhos de olhos fechados, dormindo mesmo.
No fundo, a minha melhor maneira de sonhar é de olhos abertos. Estes sonhos levam-me à grandes lutas para descobrir como realizá-los e quase sempre e os realizo. Vamos dizer que sou modesta no sonhar para tentar aproximar as duas coisas: realidade e sonhos. Mas, tem sonho que eu abandono ao longo do caminho e outros modelo ao ponto de torná-los rais.

Paradoxos disse...

Concordo em pleno! Poderoso.Muito mesmo! Beijinho recheados de amizade!

Delirium disse...

Gosto da vida, da alegria e da dor. Uma vida, mesmo que em sonho, que fosse completamente feliz me cansaria. Mas quem me garante que não optei por um sonho inconstante há muito tempo e nao posso me lembrar? ou, o que mais me aflige, aonde vão me levar esses altos e baixos?
às vezes seria bom um breve momento de inconsciencia, simplesmente...

Noslen ed azuos disse...

Lira tem uma lua para vc no céu e em meu blog...

Bjs
NS

Bandys disse...

Belo texto!
As imagens tambem saõ lindas!

Parabéns querida
Beijos

NAELA disse...

Linda texto interessante de uma sabedoria imenso!
Gostei do teu cantinho e concerteza vou voltar;)

Rui Caetano disse...

A vida é feita de constantes insatisfações.

Thiago disse...

E porque não viver o sonho, sonhar acordado e viver sonhando?

Maria Laura disse...

Sem qualquer dúvida eu escolheria ser mortal e infeliz. :) Gostei muito da tua reflexão neste texto e revi-me completamente nas palavras de Alberoni. A insatisfação vive connosco, sem dúvida.

Dalaila disse...

Alberoni, é simplesmente tocante sempre

JPD disse...

Olá Lyra

Este texto que escolheste e magnífico.

Sem colidir com o Alberoni, acrescentarei.

A relação que o homem mantem com o sono e o sonho deverá ser de duas ordens:

1ª/ De desconfiança: depois da experiência de Babel, sonhar com a felicidade fácil pode ser desaconselhavel... O melhor é prevenir-se;
2ª/ O sono, começando por ser uma necessidade, garante o sonho, mas não garante a felicidade porque, sendo o sono atormentado pela verosimilhança da morte, o sonho que acalentasse nestas condições seria perplexizante.

Donde se infere que, havendo sonos repousantes e sonhos felizes, o que o homem deverá procurar é acalentar o seu desígnio com boas perspectivas de belo, bem e verdade, juntar-lhe a votade e ser feliz se encontrar como resultado a melhor aproximação aos seus sonhos «acordados»

Mas tudo isto, Lyra, digo eu...
Bjs

jasmimdomeuquintal disse...

Parabéns, texto espectacular

Gerlane disse...

Texto provocante, instiga à reflexão. E, concordo com grande parte do que ele diz. No momento, por exemplo, bem que gostaria de passar muitos dias adormecida, isso, porém, não mudaria a realidade, seria só "um refresco" do cotidiano estressante.

Beijos!

João Videira Santos disse...

"...O sono e o sonho podem ser um refúgio, um remédio, mas não um objectivo..." - na verdade, assim é

Nyna disse...

Nossa muito tocante seu texto, concordo que a felicidade está ligada a incerteza, ao prazer pelo desconhecido, ao novo. Não dá pra ser feliz sustendo a ideia de que as coisas não devem mudar pq tá bom assim, tá confortável assim. Sou movida a mudanças, de opiniões e de gostos, mas não pq sou indecisa, mas sim pq amoo estar apaixonada por coisas diferentes, e cada vez que faço isso é por completo.

f@ disse...

É por causa das tuas escolhas incríveis e belas que adoro ficar aqui a ler... quase como andar pelas nuvens...
F Alberoni é de nunca se acordar do sonho... pela bela forma como nos diz e tantas vezes quase nos grita em sussurros o que temos mesmo que saber... a natureza, os sentimentos, as emoções... e tudo + beijinhos das nuvens

Marta disse...

Venho condidar para conhecer o meu novo espaço em

www.marprofundo.net

azul disse...

aplausos!
aplausos!

muito bem escrito.

"Quando sonhamos não sabemos que sonhamos, a vida do sonho é subjectivamente real. Uma vez adormecidos não podemos comparar. Mas é precisamente isso que nos perturba, o facto de não podemos acordar: isto é, de reconhecer o sonho como sonho, de distinguir a ilusão da realidade"

abraço

O Profeta disse...

Escreves realmente de forma mágnifica...




De pequena poça fiz um universo
Feito de sete estrelas do mar
Murmurou-me um búzio ao ouvido
O rumo para te encontrar


Bom fim de semana



Mágico beijo

Noslen ed azuos disse...

zckuxlLira sempre vc com suas idéias perigosas, colocando o espelho diante de nós..., e é justamente por isso que estou sempre te visitando, arrumando minhas idéias como que penteasse os cabelos no espelho de nós mesmo...único problema para mim é saber: será que a vida é o sonho de Deus???



“Conto do sábio chinês”
Era uma vez um sábio chinês
Que um dia sonhou
Que era uma borboleta
Voando nos campos
Pousando nas flores
Vivendo assim um lindo sonho
Até que um dia acordou
E pro resto da vida
Uma dúvida lhe acompanhou:

Se ele era um sábio chinês
Que sonhou que era uma borboleta?
Ou se era uma borboleta
Sonhando que era um sábio chinês?
Namastê
NS

Carla disse...

amiga mesmo sonhando de olhos abertos, não conseguimos fugir à inevitabilidade da realidade...é ela que nos alimenta
bom fim de semana
beijos

gaivota disse...

o sonho, um sonho...
as dúvidas em reflexão...
beijinhos

Hanah disse...

Maravilhoso seu texto

Um sonho interminável e real...


beijos

Namastê

Menina do Rio disse...

Acho que ainda assim escolheria a vida, porque o prazer está em viver, sentir...De que valeria um sonho eterno, ainda que supostamente feliz se não pudesse ver a luz, amar mesmo nas dores? Mas é um texto bastante reflectivo!


Um beijo

Madalena Barranco disse...

Querida Lyra,

Tua reflexão é maravilhosa e tem o poder de me fazer trazer os sonhos à realidade. Tu estás certa, amiga das belas letras... Quando dizes que estar consciente acima de tudo é a parte mais difícil, porém necessária para seguir adiante na vida com firmeza.

Beijos da fã.

Ignota disse...

Que giro: assim que comecei a ler o texto, o raciocínio foi-me levando a uma palavra - "consciência". De facto, linhas abaixo, lá estava: a confirmação.
Depois, falas de escolhas...

Bem, parece que entraste na minha cabeça, tiraste umas essências, e com a tua grande arte de escrita e pensamento, criaste um magnífico perfume.

Gosto muito!

Luis Eustáquio Soares disse...

belo e instigante texto, lyra, de de liras e de delírios, rio de lírios, e que o princípio de prazer, coletivamente, singularmente, seua produzido, em expansão, a partir do princípio da realdade, na consciência que força as janelas dos impossíveis, tendo em vista o realismos imposto do imposto do presente.
meus carinhos,
beijos,
luis

Camilla disse...

Acho que estamos constantemente em busca de uma felicidade absoluta. Se pararmos pra pensar, veremos que a felicidade é feita de pequenos momentos felizes. Muitas pessoas não conseguem enxergar a felicidade ue se encontra tão perto dos narizes das mesmas, então reclama, julgam-se infelizes e dizem nunca provado dessa felicidade tão falada. Muitas vezes é melhor viver num mundo de sonho, principalmente em momentos de dor e angústia, mas não podemos esquecer que essas são nossas companheiras e nos trazem aprendizado. A realidade nem sempre é doce, ela pode ser amarga, mas fugir sempre da realidade, pode não ser a solucão dos nossos problemas.

Viajei agora né?! rsrs


Um beijão!

legivel disse...

... o melhor sonho que tive até hoje (e os sonhos que já me "passaram pelas mãos" não têm conta... ) foi o de ter sonhado que estava... acordado. Nele, me vi perfeitamente nítido, a tomar um lauto café-da-manhã em João Pessoa (Recife) num hotel onde, pela janela do quarto, qual vigia de paquete de cruzeiro, podia observar o azul esmeralda da água da praia e os peixinhos de formas e cores diversas, serpenteando à frente do meu nariz.
Quando acordei, a realidade tinha sido tirada a papel químico do sonho: estava num hotel em João Pessoa, tomava o café-da-manhã que tinha pedido para me trazerem ao quarto e o azul esmeralda da água mais os peixinhos, estavam lá todos.

beijos e sorrisos.

L.Reis disse...

...sobrevivemos apenas na inquietação de todas as certezas...

Alma Nova ® disse...

Não poderias ter escrito texto que melhor se adaptasse ao que sinto neste momento, essa hesitação entre o sonho adormecido e a luta, incerta sim, mas possível, pela conquista da felicidade. Parabéns!

Auréola Branca disse...

Você tem a minha admiração por fazer-me transpirar em pensamentos diferentes.

De certo, lancei-me a sua indagação: sonho ou vida? Em um primeiro momento desejei o sonho. Mas, pensando melhor, mudei a opinião. Sabe por quê? Porque vivemos em contantes buscas. A felicidade seria o ponto final delas, mão é mesmo? Então, por que permanecer uma eternidade sem objetivos? Sem uma razão?

Nossa... Viagem pra dentro de mim.

Abraços.

Cantinho dos devaneios disse...

Se, ao contrário das minhas convicções, existisse um deus, e se ele se dignasse a fazer-me uma tal proposta também escolheria a realidade infeliz, mas por razões bastante diferentes...

Em primeiro lugar é necessário distinguir entre o que é sonho e o que é realidade. E este é um problema que me parece de difícil, ou mesmo impossível, solução. Como poderemos dizer se, num dado momento, estamos a sonhar ou se estamos acordados?... Como poderei saber se neste momento, em que escrevo estas linhas, não estarei a sonhar, adormecido numa realidade maior que este sonho?...

Não, as razões da minha escolha estão na implícita contradição entre felicidade e imortalidade e no facto de a infelicidade ser essencial à felicidade.

Estou convicto de que só pode ser verdadeiramente feliz quem alguma vez experimentou a infelicidade, só pode sentir verdadeiro prazer quem alguma vez experimentou a verdadeira dor. Se não formos experimentando algumas infelicidades, a felicidade acaba por se tornar rotineira e deixa de nos satisfazer, tornando-nos infelizes.

Por outro lado, uma das coisas que nos faz correr em busca da felicidade é essa noção de que o tempo é finito, que um dia tudo se acaba. Se soubéssemos que tudo duraria para sempre, deixaríamos de ter essa motivação, ou mesmo que a tivéssemos durante algum tempo e que, durante esse tempo, fossemos conseguindo estabelecer metas que depois alcançaríamos, chegaria uma altura em que não saberíamos encontrar mais metas e em que perderíamos toda a motivação.

Escolho esta realidade infeliz porque é essa que me permite perseguir, e talvez alcançar, a felicidade.

Um beijo

Júlio P. Andrade disse...

Blogue excelente. Conheci-o através do óptimo Registos da Leonor Calvão Borges.Vou voltar com a frequência possível.

Quanto ao texto - aplaudo. Não sou católico - costumo dizer que fui, mas... curei-me. Mas está muito bom. Obrigado

Pode contactar-me através do blogue do meu primo
www.travessadoferreira.blogspot.com. Eu ainda não tenho, nem sei se vou ter... O dele chega-me muito bem.

Å®t Øf £övë disse...

Lyra,
O grande problema é que há muita gente que parece não saber destinguir entre o sonho e a realidade. Na verdade eu não gosto de sonhar, mas gosto, e muito, quando estou de vigília. A sensação é super reconfortante.
Bjs.