domingo, 18 de maio de 2008

O inconformista

António era um rebelde. O seu ideal de vida estava longe da realidade da cidade grande. Ele acreditava na igualdade entre os homens, na liberdade de expressão e já havia algum tempo que preferia um farto prato de legumes com algum tipo de carne às pizzas, hambúrgueres e congéneres. O seu sonho era morar no campo, numa casa de pedra, junto à praia, a um rio ou a um lago. Venderia mel e artesanato feito pelas suas próprias mãos. Música, livros e a companhia de pessoas amadas bastar-lhe-iam.

Entretanto António morava numa selva de pedra, lutando diariamente (e de forma feroz) para sobreviver e prevalecer. Convivia com muitas pessoas mas, como em qualquer cidade grande, só tinha contacto, de facto, com uma pequeníssima parcela da população.

A empresa onde António trabalhava parecia ter saído daquele filme do Orson Welles, "O Processo", em que Anthony Perkins trabalha num escritório lotado de escrivaninhas, com dezenas de pessoas a dactilografar, silenciosamente sentadas, onde apenas o barulho das máquinas de escrever pode ser ouvido. Quando o expediente é encerrado todos se levantam ao mesmo tempo e, em menos de um minuto, a grande sala está vazia. Substituam as máquinas de escrever por computadores e aí está a empresa onde António trabalha.

Mas o nosso herói, como dito anteriormente, era um rebelde, um inconformista. Ao vestir-se todas as manhãs ele fazia questão de manter a sua mente em constante sintonia com a sua sede de liberdade. Então não usava cuecas ou qualquer tipo de roupa interior. Sem nenhuma conotação sexual, António ia trabalhar sem cuecas, como um acto de contestação pessoal. Por ter as suas partes íntimas livres e sem amarras, António acreditava que manter-se-ia puro, incorruptível. Um dia sairei daqui. Vou morar à beira de uma praia deserta. Viver da pesca e serei, então, feliz.

O que António nem sequer admitia era a sua falta de auto-confiança e a necessidade de segurança acima de qualquer idealismo. Ao vestir-se de manhã, as suas mãos agarravam uma peça de roupa, quase imperceptivelmente, com um gesto mecânico e impensado e lá ia António, o rebelde, trabalhar livre, leve e solto, com umas cuecas limpas e dobradas dentro de sua pasta, para o caso de surgir alguma emergência.

"Florence, un de seules lieus au monde oú j´ai compris
qu´au fond de ma révolte dormais un énorme consentement."

- Albert Camus -

32 comentários:

Hanah disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Hanah disse...

Bom final de semana...

Oliver Pickwick disse...

Traçou um perfil de muitas pessoas. Este Antônio poderia mudar de emprego, ou,de fato dá um jeito de morar numa casa de campo e ficar do tamanho da paz. É um caso típico de rebeldia sem causa.
Um conto intimista e de fina ironia. Gostei muito;)
Um beijo!

OUTONO disse...

Gostei do que vi.

Voltarei. É uma certeza.

E já aprendi uma coisa. Bodas de papoila...desconhecia.

Beijinho.

Éverton Vidal disse...

Sou um António. Rebelde, acredito na igualdade entre os homens, na liberdade de expressão e já ha algum tempo que prefiro um farto prato de legumes com algum tipo de carne às pizzas, hambúrgueres e congéneres.

Também nao uso cuecas. Também penso "Um dia sairei daqui", e também levo (infelizmente) cuecas - muitas "cuecas" - limpas e dobradas na pasta, pasta interior, para o caso de surgir emergèncias. Nesse ponto eu quero deixar de ser Antònio.

Texto perfeito.
B.
Inté!

Cantinho dos devaneios disse...

Vou já meter umas cuecas limpas na minha pasta...

Crystal disse...

Olá lira, tantas surpresas aqui encontrei :)

Primeiro foi saber do teu cristal, depois da tua enorme paixão por fractais, que eu tb adoro e não me canso de admirar...

Uma visita muito agradável, sem dúvida.

Quanto a este post, não seremos todos (ou quase) uns inconformistas? Eu tenho uma forma muito própria de manter a minha rebeldia e liberdade: Ando de alma despida e é assim que sei ser feliz.

Um beijo para ti, obrigada pela visita,voltaremos a falar em breve.

bj

pin gente disse...

dizes que tropeçaste no meu blog?
espero que não te tenhas magoado!

gostei de vir aqui ler-te.
como o antónio há muito. no fundo entregues ao seu próprio marasmo.ou há espera que o destino lhes bata à porta.

um abraço
volta, sim. voltarei também.
luísa

Luis F disse...

Li e reli o teu texto...

Parabéns pelo momento de prosa, nesta bela história...

Gostei muito.

Com amizade
Luis

Menina do Rio disse...

Existem milhões de Antónios! A sua rebeldia é meramente fantasiosa, pois no fundo ele vive a escolha que fez e falta-lhes coragem para dar um passo em direção à liberdade que tanto sonha...

Um beijo

Angel of Light disse...

Querida!

A razão da minha ausência, nestes últimos dias, já está à vista. Passa pelo último post do “Keep Your Mind Wide Open” e leva o que é TEU! Obrigada lindo ser de luz pela tua carinhosa participação e partilha.

Beijinhos de Amor, Paz e Luz!

Liberdade disse...

Gostei muito da forma como, brilahntemente, misturaste subtileza e ironia e conseguiste a receita para descrever todos nós (ou quase) que andamos por aqui...

Abraços virtuais.

daniel disse...

Olá

Antónios atraídos por liberdade de espaço haverá muitos, mas do que o autor se havia de lembrar, afim de tornar a história mais rica e atraente?
Daniel

Bandys disse...

Lyra,
Belo texto.

Adorei
Beijos

Pena disse...

Linda Amiga:
Albert Camus, o filósofo existencialista francês marcou uma altura da minha vida, juntamente como outros escritores brilhantes e talentosos, caso de Jean Paul Sartre.
Um texto diferente. Valioso. As palavras doces falam por si só com a mestria do seu lindo ser.
Trouxe um texto em que a revolta perante uma absurda existência ganha forças e se afirma.
Gostei muito, acredite?
Os meus parabéns. O inconformismo. A beleza de expressar e dar um sentido à vida.
Beijinhos amigos de forte estima.
Com consideração e admiração pelo seu enorme valor

pena

MARIA MERCEDES disse...

Just in case, just in case...!

beijinho

Gerlane disse...

O incoformismo com a cidade grande e as paredes que aprisionam friamente a liberdade, a vida. Conheço bem esse enredo, infelizmente, na prática.

Uma boa semana!

Beijos!

poetaeusou . . . disse...

*
Um dia sairei daqui. Vou morar à beira de uma praia deserta. Viver da pesca e serei, então, feliz.
,
eu vou ficar aqui,
com uma praia rasa de gente,
comentando:
a linguagem do caos,
,
conchinhas
,
*

Multiolhares disse...

Vivemos com tantas amarras
Somos condicionados em tudo
Até os pensamentos nos querem moldar
Por vezes precisamos de algo que diariamente
Nos mostre que ainda não fomos corrompidos
beijinhos

JPD disse...

Belo texto.

Isso mesmo, o desafio é esse: um ideal e a rotinazinha que nos enfraquece a execução daquele.

Romper é tremendo!

Ignota disse...

Anti-Conformista.
Mas hoje estou com poucas palavras: estou de volta e extremamente eléctrica. Hoje sou eu que venho dizer que estou feliz!

Beijinho * Boa semana.

gaivota disse...

viver à beira do mar, como entendo o António!
é mesmo o melhor que há...
beijinhos

Ana Luar disse...

O inconformismo e a procura da liberdade obrigam-nos muitas vezes a vestir as tais cuecas limpas. Eu visto-as todos os dias... tv pela sorte de morar num lugar em que a paz é natural. :)

carvoeirita disse...

o texto fez-me pensar em várias coisas: da minha mãe que ia trabalhar quase de rastos para a fabrica onde trabalhava oito horas por dia encostada a uma prensa que libertava vapor a 40 graus...
acho que gosto do que faço...mas ás vezes venho de ténis...é o meu unico sinal de rebeldia!
beijinhos Lyra!
Tens sempre textos fantásticos!

FERNANDA & POEMAS disse...

Olá querida Lyra, lido texto muito bem conseguido... Adorei Amiga...
Beijinhos de carinho,
Fernandinha

Noslen ed azuos disse...

...não penso, só vivo o momento e procuro ser feliz; agindo desta forma, por merecimento teremos o que nos destina...

Muito legal este seu post, como sempre ‘graças a Deus’, nos fazendo pensar!

Bjs
NS

Maria Laura disse...

Rebeldia de fachada? Convém, convém... :)
O teu texto está excelente.

O Profeta disse...

É uma sublime ficcionista...


Doce beijo

Nyna disse...

Ótimoo, perfeito texto.
Prometo que passarei aqui com mais tempo.
E muuuuito obrigada pela força lá no post anterior.

;)

Crisfonseca disse...

Olá , lindo conto, adorei, aliás teu blog é maravilhoso
Super beijos
Cris

jmack disse...

hum ... o conformado

um abraço

jmack

Margarida disse...

Passo para desejar um óptimo feriado...
beijinho